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Íntegras: Análise Gamística [GameMaster 39, 04/2008]

Posted by Fabão em 7 maio, 2008

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O que se espera de uma análise de jogo?

Esse tema é pauta de discussões freqüentes entre os jornalistas de games. Independente de veículo e meio de divulgação, a forma como os reviews são pensados pelos escritores e apreendidos pelos leitores é central para o amadurecimento da crítica gamística e, por conseqüência, da mídia que cobre jogos eletrônicos e sua reputação.

Desde que se convencionou analisar jogos, na década de 1980 no exterior e com maior alcance no início dos 1990 no Brasil, o conteúdo das análises pouco evoluiu. Nessas cerca de duas décadas, os games passaram de amontoados de pixels com premissas e mecânicas simples a produções sofisticadas, capazes de muito mais do que se supunha quando de sua criação. No entanto, a avaliação deles, com algumas exceções, continua circunscrita a critérios ultrapassados, não acompanhou seu objeto de estudo em refinamento. Dificilmente vê-se um texto analítico que transcenda o eixo gráficos-jogabilidade-diversão – um conceito de diversão, aliás, geralmente insubstanciado ou, na melhor das hipóteses, mal elaborado. Quando muito, temos alguns apontamentos sobre longevidade e uma sinopse do enredo.

É evidente que não se pode abstrair a funcionalidade em uma análise de jogo, como também não é necessário abolir os comentários acerca dos aspectos técnicos – afinal, é preciso avaliar os méritos dos jogos na qualidade de produtos comerciais, e produtos comerciais interativos, seu atributo distintivo por excelência. Porém, não seria mais edificante se se escrevesse sobre a capacidade de Shadow of the Colossus de inspirar solidão, angústia, remorso em vez da diversão que costumeiramente se imputa aos jogos? Se se aludisse à sua direção artística em vez de à sua baixa taxa de quadros por segundo? Que os analistas realçassem a atitude e a estética de No More Heroes, não seus gráficos serrilhados? Senão, quando teremos críticas de fato, não apenas “reviews”?

Talvez nunca, ou pelo menos não enquanto a contraparte do texto – o leitor médio – não idealizar uma análise que aborde aspectos abstratos em vez de aquelas que navegam seguramente na superfície. Os escritores costumam abrigar-se onde moram as expectativas do leitor, e esse, presentemente, parece viver plenamente a era do utilitarismo fugaz, do imediatismo voraz. O mundo aparentemente demanda apenas reviews com função prática, com uma nota geral estampada em destaque – e geralmente isso só basta, o texto é um natimorto. Quem se importa com uma perspectiva pessoal quando o consenso está ali, fácil? A dupla de sites Gamerankings.com/Metacritic.com tornou desnecessária a opinião distintiva, e junto com ela a necessidade de amadurecer o texto.

Com isso, perpetua-se o caráter funcional e prescritivo da análise de jogos eletrônicos: ela serve pura e simplesmente para dizer o que compensa ou não jogar. Não há espaço (ou mesmo necessidade) de uma crítica mais elaborada, que contenha, além da opinião fundamentada, contextualizações pontuais, analogias cultivadas e percepções originais. Poucos encaram a crítica gamística sob seu aspecto contemplativo e transmissor de conhecimento – o não precisar querer jogar para se informar.

Paradoxalmente, vivemos a reclamar que o entretenimento eletrônico não é levado a sério, que ainda é encarado como mera distração pueril. Se quisermos tornar essa atividade respeitada, evidenciar o nível de sofisticação a que chegaram os jogos pode ser um caminho promissor. Então, que tal esperar algo mais de uma análise de jogo?

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10 Respostas to “Íntegras: Análise Gamística [GameMaster 39, 04/2008]”

  1. Como sempre, belo texto. Falou tudo que eu costumo dizer, só que com palavras mais bonitas. 😛

    No Continue eu tento fazer a minha parte. Veremos se há o público.

    E digo mais: se houvesse um site como o tal Metacritic por essas bandas, eu definitivamente não adotaria um sistema numério só para ser incluído.

  2. Uehara said

    Muito legal a forma como foi abordado o assunto.

    Concordo sobre faltar “críticas” ao invés de “reviews”, e acho legal abordar o enredo e a arte propriamente dita nos jogos, mas pra mim, jogar é uma experiência muito pessoal. Cada um vê um jogo de um jeito, sendo que um jogo 10 ou A+ pra você pode ser um jogo 3 ou D- pra mim. Por isso, eu não acredito em avaliações com sistema de notas ou coisas do tipo.

    Eu acho legal quando o autor do review conta o que achou do jogo, o que conseguiu extrair da experiência, e acima de tudo, se se divertiu com o jogo. Notas, pra mim, não significam nada.

    Afinal, tem gente que dá 10 pra Nintendogs…

  3. Lukahart said

    Concordo com o Uehara, experiência é algo muito pessoal, e já tive experiências de jogos graficamente belos ou com sons ambientes muito bons mas que no final não divertiram como o esperado e não acrescentaram em nada.

    Um termo que tenho visto sobre isso é do “New Games Journalism” (que por coicidência é um trabalho de pós que estou fazendo ^^), derivado do New Journalism, sobre escrever mais sobre a emoção do jogo do que sobre o seu aparato técnico.

  4. Maiquinho said

    essa é minha luta a tempos
    odeio números no meio dos reviews de games
    como se um número fosse capaz de equacionar quantitativamente a exata satisfação que eu vou ter jogando determinado game

    comecei a escrever sobre games pra valer a pouco tempo, ainda não fiz nenhum review, mas quando fizer certamente não vai ter números e não vai seguir o formulismo que impera nesse meio

  5. Guerra said

    A parte do autor realmente é de suma importância, porém, contudo, no entanto, não raras as vezes que vemos leitores criticando a nota, não o review. Acho sim que devemos criticar um jogo e vou além, imagino que deveriamos abolir notas. Isso faria o autor parar de justificar o número/letra/estrela que ele deu. Sei lá acho que sou um tanto progressista (ou regressista) demais.

    Valeu Fabão, este texto deveria ser leitura obrigatória para todos os jornalistas de games.

  6. Mauri Link said

    Concordo, para mim jogar é uma experiência, e não um número ou uma letra. è só isso que espero de um review.

  7. […] duas edições, aqui mesmo na minha coluna, insinuei como os sites Metacritic.com e GameRankings.com são […]

  8. Como sempre, uma aula do mestre Fabio Santana. Ficarei de olho nessas dicas. 😉

  9. Victor said

    Muito bom esse texto, como sempre. Li os “Time Extend”, da EDGE, como indicado pelo dono do blog, e achei muito legais. Só achei que poderiam ser um pouco maiores, e acabei percebendo que o inglês é uma língua bonita e até complicada de se entender de acordo com os termos/expressões utilizados. Mas, como sempre, aprender e ver o quanto não sabemos das coisas é DEMAIS! ^^

    Longa vida ao mestre Fabão. .o/

  10. […] arte. É a abordagem que idealizei, não tão aberta e objetivamente quanto agora, na coluna “O que se espera de uma análise de jogo?“, em que também mencionei a importância da expectativa do leitor para que essa abordagem […]

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