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O blog do Fabão

Íntegras: Tempo X Reviews [GameMaster 44, 09/2008]

Posted by Fabão em 24 setembro, 2008

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Contra o Tempo

O desafio de se fazer uma análise sólida de jogo sob a pressão do relógio

A imprensa de entretenimento eletrônico, na qualidade de profissão, tem tantas agruras quanto tem encantos. Um desses inconvenientes é a implacabilidade do tempo. O tempo… amigo dos prudentes e algoz de todos, ele vigia o trabalho ininterruptamente, cobra pontualidade sem concessões. Seja em qual mídia for, cada uma com suas peculiaridades, todos devem servir ao senhor absoluto, o “fechamento” – que também atende pela alcunha de “prazo” ou pelo anglicismo que tão precisamente descreve seu caráter, “deadline”.

No jornalismo de games, tal senso de urgência causa certos embaraços a uma prática em particular: a crítica de jogos. O processo varia pouco: primeiro, obtém-se o jogo, seja uma cópia enviada antecipadamente pela produtora (hipótese que, no caso dos veículos de comunicação brasileiros, se concretiza apenas com perseverança e um pouco de sorte), seja a aquisição da versão final pós-lançamento. Então joga-se o possível, quase nunca o necessário, mas geralmente o bastante para se formar uma opinião. Quase que simultaneamente à experiência, nasce o texto, que é publicado na edição do mês (no caso da mídia impressa), visando coincidir com a chegada do jogo às lojas. Tudo para atender a um propósito pragmático: possibilitar ao leitor uma decisão de compra informada.

(Continue lendo após o “salto”)

Na maioria dos casos, o modelo padrão de confecção de análise parece ser suficiente. Pegue, por exemplo, um jogo como BioShock. Ele tem uma campanha que se estende por duas dezenas de hora. O mesmo vale para títulos como Resident Evil, Silent Hill ou Metal Gear Solid. Jogos de luta, então, podem ter sua integridade explorada em menos de 10 horas. Puzzles idem, e assim também com aventuras de plataforma. Quando há ainda um modo multijogador online, algumas partidas costumam dar a base necessária para abordar o aspecto no texto.

A questão fica mais intrincada quando o objeto em exame é um jogo de escopo mais amplo. Não há, por exemplo, esperanças de devassar um jogo MMO, nem com meses de investidura. Mesmo os RPGs offline, que contam uma história fechada e vêm com conteúdo fixo, habituaram-se a voar bem além das 50 horas de jogo. E, para falar de um caso real e imediato, como passear por todas as possibilidades oferecidas por Spore? O universo concebido por Will Wright e cia. é aberto e volátil demais para que se possa formar juízo breve a seu respeito.

Porém, o problema que parece ser de extensão e tempo disponível, é muito mais de influxo e tempo decorrido. Tanto às críticas de jogos curtos quanto às dos vastos faltam a percepção do senso histórico e a noção de conjunto, que só vêm com o tempo. Terminar um jogo não equivale a apreendê-lo. Um título de luta, por exemplo, dado como momentâneo, em situação real de consumo de massa pode provar-se equilibrado e perpetuar-se, ou cair no esquecimento por ser justamente o contrário. Assim também qualquer jogo, estrito ou amplo, pode se tornar seminal por diversas razões, sem que nos demos conta desse potencial num primeiro contato.

Afeta também os textos feitos sob as injunções do relógio o intervalo entre a experiência e o relato. Em geral, como disse, as duas coisas acontecem em quase sincronia, quando o mais saudável talvez seria distanciá-las um tanto. No calor da revolta por um defeito bobo ou no fascínio por um segmento agradável, o julgamento nubla. Certo distanciamento emocional – um “estado neutro”, por assim dizer – seria, então, medida cautelar, e isso pede assentamento.

Por questão cronológica, análises feitas postumamente costumam ser muito mais lúcidas. No entanto, o ímpeto do consumo pede que o trabalho seja feito, e já. É preciso, portanto, ter a consciência de que as críticas por ocasião de lançamento são, em geral, recortes práticos dos produtos, e só com mais tempo (de experimentação, de maturação, de confecção) podem ser transformadas em conceitos esclarecidos das obras.

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13 Respostas to “Íntegras: Tempo X Reviews [GameMaster 44, 09/2008]”

  1. Concordo plenamente. Inclusive, aqui vai um excelente exemplo de uma crítica bastante lúcida, feita com anos de distanciamento, considerando o contexto histórico:
    http://blog.wired.com/games/2008/09/dqiv-review.html

    O Chris Kohler é uma fera nessa área.

  2. Eu fico muito apreensivo quando tenho um curto espaço de tempo para analisar, escrever e entregar uma analise. É super complicado você querer formar uma opinião sobre algo que você ainda não entendeu direito ou ainda não obteve experiência o suficiente.

    Como você disse: “ríticas por ocasião de lançamento são, em geral, recortes práticos dos produtos”.
    As revistas não podem cair na bobeira de largar mão da qualidade apenas para estampar tal jogo um mês mais cedo. Pois querendo ou não, ela 95% das vezes estará perdendo para a Internet nessa corrida.

    Mas enquanto isso, a gente vai dormindo menos…:)

    Abraços!

  3. Maiquinho said

    eu ainda não entendo como uns caras como você e o gil conseguem avaliar um RPG em uma semana ou duas :p

    oq dizer, então, de fazer um detonado.

    eu já pensei em escrever reviews para o blogeek de lançamentos. porém, quando eu sinto que to apto a escrever sobre o jogo, ele não é mais lançamento. já é OLD :p

    mas, vo te uma oportunidade agora. assim que lançarem pokémon platinum por aqui, vo podê escreve sobre ele com base na minha experiência com o diamond/pearl, acho q é a unica chance que vou ter de fazer um review consistente muito próximo do lançamento do game :p

  4. Hunterpiro said

    Tempo tempo… tô começando a esquecer o quê é isso.

    E em se tratando de joranlismo de games, é ainda mais complicado; Elogiando ou falando mal, sempre terão aqueles que apreciarão o review/preview, e aqueles que vão odiar também.

    Da mesma forma, é aparentemente impossível analisar um jogo de forma fria e puramente analítica, falando em frames por segundo, gráficos e o caramba. Sem contar que muita coisa só se descobre após jogar o jogo todo, assim como um filme. Acredito que ninguém escreve análises de filme vendo só o trailer…

    É por tudo isso que eu admiro muito os jornalistas de games – sejam de revistas ou internet ^^

  5. geraldofigueras said

    É por isso que o conceito de crítica ou análise deve ser abordado com maior precaução. As famigeradas notas numéricas, ainda que práticas do ponto de vista de quem absorve a análise, carrega o perigo de mascarar a verdadeira intenção do jogo, pois esses padrões colocam lado a lado Bioshock e Disney Friends, títulos com propostas completamente diferentes uma da outra.

    É ai que mora a dificuldade de construir um texto a partir de poucas horas de jogo: experimentar o novo título com os olhos abertos a todos os fatores que, para o escritor, constituem os elementos de qualidade. Simultaneamente, compreender a proposta do jogo e saber distingui-la da subjetividade do analista. Com o relógio correndo fica mais difícil ainda, e cabe ao crítico discernir se as observações e as sensações levantadas nas poucas horas de controle nas mãos são suficientemente relevantes para serem admitidas na escrita. Ou seja, é o conflito da personalidade e da certeza com a possibilidade dos fatores observados tomarem outra forma, na hipótese de se extender a jogatina além das poucas horas propostas.

  6. Escreva reviews pro Continue, Fabão. Te dou todo o tempo que tu precisar. Vamos combinar então: tu fica me devendo um review de FFXIII. Prazo: 2015. Fechado? 😀

    Eu tô jogando Spore ainda, e só vou fazer review quando achar que devo. O pior é que essa hora não tá chegando… 😛

  7. Adney Luis said

    Por essas e outras que optei por um blog só sobre jogos antigos. Assim posso somar as minhas sensações recentes perante o jogo às minhas lembranças antigas, sem me preocupar com prazos (tanto é que, em quase 9 meses de blog, não cheguei a 30 posts)…

    Por outro lado, tenho também um blog sobre cinema e percebo muito bem esse problema do tempo. Ainda mais agora já que vou cobrir (sozinho) o Festival de Cinema do Rio. A minha rotina vai ser assisti dois filmes num dia, postar, assistir mais dois no dia seguinte, postar…

  8. Cesar "Leropold" said

    “eu ainda não entendo como uns caras como você e o gil conseguem avaliar um RPG em uma semana ou duas :p” (2)

    @Maiquinho: eu tenho uma teoria acho que deve ser justamente por causa da revista “the best” Gamers, os caras escreviam que nem louco naquela época a rede Progames deviam dar alimentos radioativos para eles e isso são sequelas dos arduos treinamentos.
    (modo fã =off)
    🙂

  9. Uehara said

    Ao mesmo tempo em que eu acredito que um review é algo muito pessoal, eu também acho que um review “frio”, só com dados técnicos e uma nota também não serve de parâmetro pro consumidor decidir se o jogo vale a compra ou não.

    E outra, se a pessoa não está “hypada” o suficiente pra comprar o jogo sem ler um review, ela quer uma opinião de quem jogou. Por sua vez, o jornalista de games tem que ter jogado por um tempo razoável pra ter uma opinião embasada.

    É por isso que um review tem que ser lido como um “primeiras impressões”, não algo a fundo, já que quem escreve não teve tempo de jogar o suficiente. Um jogo é uma experiência pra vida toda. Só o tempo diz se a compra valeu a pena ou não.

  10. Todos os reviews de games que fiz até hoje em meu blog também foram retrôs. Acho que resenhar um game novo meio que “em tempo real” é coisa para profissionais, mesmo.
    Em tempo: Fabão, não esqueça do retroreview de Shenmue que você (quase) me prometeu certa vez, hã! 😉

  11. Otavio said

    Fabão, você conseguiu chegar em um ponto que me preocupa bastante. Nas minhas análises, até pela minha formação acadêmica e pelo meu passado com cinema, eu tento sempre me focar no poder narrativo, a liberdade de escolha ou a sensação de imersão e dou pouco peso à questões mais práticas, como explicar sistema de controles detalhados, por exemplo — acho que isso é função do manual.

    Muitos jogadores reclamam da minha abordagem, recebo mensagens ofensivas às vezes, questionando a qualidade do meu trabalho. Ainda que esteja seguro das minhas convicções e das minhas habilidades, sinto que realmente não consigo seguir na minha metodologia em todos os casos, simplesmente pelo tal tempo, ou melhor, a falta dele. Acho que pouca gente trabalha com a quantidade reviews que eu produzo, ou pelo menos em sua extensão, seguindo uma média de 18 por mês, e é muito complicado manter um distanciamento. Mas ele é sim fundamental para colocar as idéias e sentimentos no lugar, buscar sutilezas e, muitas vezes, esperar por aquela inspiração que teima sempre em escapar nos piores momentos.

    Parabéns pela coluna, impecável como sempre. Nota 10/10 😛

  12. Pedro Ivo said

    Também concordo que só se deve criar uma análise de um jogo depois de jogá-lo muito. Recentemente eu terminei 2 games e quero fazer um análise dos 2 e postar no meu blog, mas, para evitar um ”julgamento nublado”, terminei-os duas vezes!

  13. O geraldofigueiras disse algo que eu tava comentando com o Bruno (meu parceiro blogueiro no Faca no Console!) ainda hoje, durante o almoço: o quão difícil é fazer um review.

    Digo isso pela experiência prática com minha opção profissional, Design. O grande trunfo do designer é saber cumprir com os objetivos propostos, identificando problemas a serem resolvidos e aspectos a serem melhorados… mas com uma diferença crucial, sabendo anular seu gosto pessoal durante o processo. Afinal, ele está fazendo algo para um público específico, e não para si mesmo.

    Jornalismo de Games é a mesma loucura. Tem que saber analisar o jogo de acordo com o quanto ele é o que se propõe a ser, o quanto ele foi bem trabalhado e quão bem as propostas feitas foram executadas. Ainda mais tendo deadlines tão curtas! É dose!

    Mas, talvez, essa seja a mágica da coisa. O que atrai uns poucos bravos jogadores a se tornarem jornalistas, a quererem passar por isso pra levar informação aos outros gamers. Dá pra considerá-los heróis, destemidos, prontos pra encarar a barra de transformar a nossa diversão na dor de cabeça deles. E são poucos os que fazem isso de maneira tão apaixonada a ponto de se importar realmente com a qualidade da informação que está chegando ao leitor. E só o Fabão mesmo, pra se dar ao trabalho de explicar isso com calma e detalhadamente, nesse texto fantástico. Sem contar o domínio da escrita que o cara tem, ainda fico espantado com o vocabulário dele. xD

    E é a nossa realidade, por mais triste que seja. Temos que trabalhar com prazos. Seja entregando projetos, produtos e trabalhos ou críticas, reviews e matérias que não nos satisfazem totalmente, que sabemos estarem incompletos, que não atingiram a perfeição que queríamos. Mas é só respeitando os prazos que cumprimos com nossos deveres profissionais, não é? Temos que aceitar fazer muitos trabalhos que não gostamos, é verdade. Mas eu, particularmente, não ligo. Não ligo porque sei que, quando acertamos a mão e fazemos algo que realmente sentimos que está ótimo, não existe sensação melhor no mundo. São esses momentos que fazem nossas carreiras valeram a pena, não é?

    Abração, rapaz. And keep up the good work. ;D

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